Conhecendo e manejando a lagarta Helicoverpa armigera, em soja

16/03/2017 14:51:17

Atualizado:

27/06/2017 20:48:52

Depois de duas safras de convivência com a nova praga, pode-se dizer que o setor produtivo de soja encontra-se melhor preparado para o controle da lagarta Helicoverpa armigera (Lepidoptera: Noctuidae: Heliothinae). Inicialmente, a praga provocou alarme e o desconhecimento sobre o inimigo gerou uma luta desigual. Houve perdas por falta de atenção e por subestimação do potencial de dano da lagarta. Por outro lado, é bem provável que também tenha havido exageros na ânsia de aplicar inseticidas para o controle. Tudo isso pode ser considerado aceitável diante de um novo problema, cercado de mistérios e de falta de informações. Hoje a pesquisa, os agentes de assistência técnica e os sojicultores, cada um em seu espaço de ação, desenvolveram conhecimentos e experiências que, embora ainda de forma parcial, permitem que a praga seja enfrentada de forma mais equilibrada. Avançou-se na pesquisa sobre biologia, dinâmica populacional, danos, controle biológico natural e no uso de inseticidas químicos e biológicos para o controle da praga.

O controle de uma praga dentro dos preceitos de manejo integrado pressupõe uma série de conhecimentos básicos a aplicados. É preciso conhecer a praga, suas características biológicas e comportamentais; conhecer a cultura, suas fases mais suscetíveis ou mesmo de tolerância; constatar o início das infestações e acompanhar a evolução populacional; e ter critérios quantitativos para tomar as decisões de controle. Na prática, para manejar uma praga é necessário conhecê-la muito bem, avaliar o potencial de dano e o risco em cada fase da cultura e, antes de se perguntar o que aplicar, deve-se ter resposta sobre quando aplicar.

Conhecendo a praga

O reconhecimento morfológico das diferentes fases biológicas de H. armigera já não se apresenta como tarefa com alto grau de dificuldade, como ocorreu logo após a invasão da praga. O que precisa ser melhor considerado são outros aspectos da bioecologia da espécie. O potencial de reprodução H. armigera é, reconhecidamente, elevado. Em média, uma mariposa pode colocar mais de 1000 ovos, em toda a sua vida. Em laboratório, tem-se observado que uma mariposa pode durar em torno de 10-12 dias e que viabilidade dos ovos é muito alta, geralmente, de próxima a 100%. A duração do ciclo de vida que, conforme as citações da literatura varia de 30 a 60 dias, permite que várias gerações sucessivas se completem durante a safra de soja. Constatou-se que em pleno verão (janeiro-fevereiro), nos períodos de temperaturas mais elevadas na estação, uma geração da espécie pode se completar em apenas 30 dias. Estes atributos biológicos inatos, ou seja, alta prolificidade, alta taxa de fertilidade e ciclo curto, conferem à espécie potencial para fazer com que a população cresça rapidamente.

No entanto, o crescimento populacional não é fruto apenas do potencial de reprodução, ou seja, da quantidade de indivíduos produzidos num certo intervalo de tempo. A própria natureza impõe freios a este crescimento. Assim, a quantidade de lagartas que ocorre numa determinada safra é dada pela diferença entre velocidade e capacidade de reprodução e a mortalidade, ou seja, o número de indivíduos que sobrevivem. Neste balanço, a quantidade e a qualidade do alimento (no caso, as espécies e os órgãos das plantas nas quais as lagartas se alimentam), o clima e os inimigos que comem ou usam H. armigera para sobreviver, desempenham papel determinante.

A dinâmica populacional de H. armigera é definida pela interação entre vários fatores: hospedeiros preferenciais, intermediários ou secundários e condições ambientais de natureza abiótica (temperatura, umidade, etc.) e abiótica (inimigos naturais).

A polifagia, ou seja, a capacidade de se alimentar, de sobreviver e de se reproduzir em várias espécies vegetais confere a esta praga uma vantagem adaptativa que explica a rápida expansão geográfica na região sul, como de resto em todo o Brasil.

No Rio Grande do Sul, além de soja, lagartas de H. armigera foram constatas em outras plantas cultivadas como milho, girassol, trigo, canola e linho, além de várias outras espécies de plantas espontâneas (azevém, nabo, aveia-preta, soja guaxa etc.) e daninhas. Assim, a disponibilidade de alimento para as lagartas, não tem sido limitante.

No entanto, a relação de H. armigera, como espécie herbívora, com as suas fontes alimentares (plantas cultivadas ou não), precisa ser melhor investigada e compreendida. Da mesma forma, as exigências da espécie em relação às condições de ambiente, especialmente de temperatura (temperatura base, existência ou não de repouso hibernal, etc.), precisam ser melhor conhecidas.

Estudos sobre a adequação dos hospedeiros como alimento realizado no Laboratório de Entomologia da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, da Universidade de Passo Fundo, tem mostrado que nem tudo o que a lagarta consome é adequado para proporcionar a performance normal da espécie.

Nos últimos anos, o clima também tem sido favorável para espécies consideradas pragas de cultivos de verão. Outonos prolongados e invernos amenos e mais curtos têm influência direta e indireta na dinâmica populacional das pragas. Temperaturas mais elevadas aceleram o ciclo de vida e aumentam a sobrevivência. Indiretamente, sem geadas, a soja guaxa se apresenta como a ponte-verde ideal para a manutenção de focos de infestação de H. armigera, na entressafra. Após a soja, tem sido comum encontrar as lagartas em crucíferas espontâneas. Na primavera, isso também tem sido verificado em nabo , ervilhaca e na cultura do trigo, com as lagartas atacando as espigas.

Outro fator que tem se mostrado extremamente importante na definição da dinâmica populacional de H. armigera é a ocorrência de inimigos naturais da praga. Mesmo sendo uma praga exótica e de introdução recente, o contingente destes organismos benéficos, tanto predadores como parasitóides (moscas e vespas), se manifestou em níveis elevados desde cedo. Chama atenção que além dos elevados índices, o parasitismo tem sido constatado precocemente, já nas primeiras lagartas encontradas a campo. Isso ocorreu tanto nas primeiras infestações constatadas em soja em outubro-novembro de 2013 e 2014, como em lagartas coletadas em nabo, no mês de agosto de 2015, que já se encontravam parasitadas por himenópteros (vespas).

O monitoramento de adultos com armadilhas tipo delta, iscadas com feromônio específico para a espécie mostra que mesmo durante os meses de inverno, mariposas estão presentes na sul do país.

Manejando a praga

Depois de um período de dúvidas sobre qual seria o real tamanho do problema no Rio Grande do Sul, e após três safras de convivência com a lagarta H. armigera, alguns pontos começam a ser esclarecidos. É uma praga que se estabeleceu e se encontra amplamente distribuída na paisagem do estado. A magnitude dos danos varia com o local, com o ano e com o nível de infestação. Mas em áreas sem controle ou com tentativas frustradas de controle, as perdas no rendimento de grãos atingiram entre 20 e 30%, em algumas áreas acompanhadas.

As lagartas de H. armigera podem ocorrer em qualquer fase do ciclo da soja, agindo como pragas iniciais, desfolhadoras típicas ou atacando flores e legumes. Os danos são maiores quando o ataque se dá nos legumes, porém não se pode subestimar seus efeitos como consumidora de cotilédones e de folíolos recém abertos ou como cortadora de plântulas. Esta última situação se apresenta como de alto risco quando a soja é semeada sobre alguma cultura de cobertura onde lagartas já estejam presentes na área antes da dessecação. Severas perdas já foram constatadas em soja semeada sobre ervilhaca, logo após a aplicação de herbicida dessecante, em lavoura infestada por lagartas grandes de helicoverpa. Em qualquer situação, as iniciativas para controle da praga devem estar baseadas no monitoramento populacional, visando identificar infestações iniciais ou a evolução das mesmas ao longo do tempo. Por se tratar de uma praga de alto potencial de danos, recomenda-se a realização de duas vistorias por semana, na lavoura. Logo após a emergência das plantas e até que elas tenham duas folhas trifolioladas, o monitoramento pode ser feito pelo exame direto das plantas, contando-se o número de ovos e de lagartas, por metro de linha. Quando as plantas já estiverem maiores e até o fechamento das entrelinhas, a avaliação do número de lagartas por metro de linha já pode ser feita com o pano-de-batida, nesse caso com o pano horizontal. Após o fechamento do espaço entre as linhas, o monitoramento pode ser feito com pano-de-batida vertical, visando determinar a densidade de lagartas por metro de linha. O Nível de Ação, ou seja, a densidade p opulacional da praga em que medidas de controle devem ser aplicadas é: 4 lagartas pequenas/m na fase vegetativa e 2 lagartas pequenas/m na fase reprodutiva. São consideradas pequenas lagartas com menos de 2,0 cm de comprimento. Estes parâmetros (Níveis de Ação) devem ser vistos como referências de apoio às tomadas de decisão e devem ser valores médios de várias amostras, obtidas de forma casualizada na lavoura de modo que representem uma estimativa aceitável do grau de infestação da praga.

Com relação aos métodos ou táticas de controle, as opções prontamente disponíveis na prática para aplicação no manejo de H. armigera em soja são o uso de cultivares resistentes, de inseticidas químicos e biológicos e do controle biológico aplicado, com a liberação massal de parasitóides de ovos. O uso de cultivares resistentes pode ser considerado o método de controle ideal devido à facilidade operacional e à redução do impacto e dos riscos em relação ao meio ambiente. Destaca-se, também, pela facilidade de integração com outros métodos de controle, químicos ou biológicos. Nesse sentido, estão disponíveis no mercado as denominadas cultivares de soja Bt, que expressam a proteína entomotóxica Cry 1 Ac, derivadas da bactéria Bacillus thuringiensis, que tem efeito sobre as principais espécies de lagartas da soja. Há que se ter cuidado, porém, com algumas lagartas, especialmente Spodoptera eridania e Spodoptera cosmioides, e com outros tipos de pragas da soja, como percevejos, raspador, tripes e ácaros, não controlados por esta tecnologia.

O tratamento de sementes com inseticidas químicos pode ser uma tática interessante com vistas a controlar infestações muito precoces, oriundas de posturas feitas na soja, logo após a emergência das plantas. A vantagem do tratamento de sementes, desde que seja feita a escolha do produto certo, é de retardar o início da pulverização com inseticidas, numa fase em que a área foliar da soja é limitante para produtos de ação por ingestão. Além disso, o tratamento de sementes com inseticidas é mais seletivo que as pulverizações em relação aos insetos não visados.

Uma situação muito especial se configura quando a soja é semeada sobre alguma cultura de cobertura dessecada que possa ser hospedeira da praga. Nesse caso, é necessário fazer um levantamento prévio na cultura a ser dessecada se lagartas estão presentes e em que quantidade, para então adotar o procedimento adequado. Se forem constatadas lagartas grandes de H. armigera, o risco de danos severos na soja a ser implantada, devido ao corte de plântulas, deve ser considerado, mesmo em cultivares de soja Bt. A solução nesse caso pode ser o retardamento da semeadura da soja após a dessecação por um tempo suficiente para que as lagartas completem o ciclo ou morram por inanição (isso precisa ser constatado através de levantamentos) ou a aplicação de inseticidas antes da semeadura. Neste último caso, o modo de ação (contato, ingestão) do produto e o tempo necessário para que faça efeito devem ser devidamente considerados.

O uso de inseticidas em pulverização após a emergência da soja é indicado quando for atingido o Nível de Ação recomendado para cada fase da soja. Além da eficiência do ingrediente ativo, seja ele de natureza química ou biológica, a dose e o momento da aplicação devem ser levados em conta. Aplicações baseadas nesses critérios quantitativos têm mais chance de sucesso quanto à otimização do momento para se fazer o controle. Aplicações muito precoces podem significar menor período de proteção e muito tardias, podem levar a resultados insuficientes e à necessidade de reaplicações seguidas e emergenciais. Como regra, lagartas maiores são mais difíceis de serem controladas. Aplicações por algum motivo frustradas podem desencadear um comportamento irracional com uso de altas doses, de misturas impróprias de produtos e a redução do intervalo entre aplicações, geralmente sem o sucesso esperado.

Cuidados adicionais no uso de inseticidas devem ser tomados, entre os quais, destaca-se o uso de produtos devidamente registrados no MAPA, a preferência para produtos mais seletivos aos inimigos naturais das pragas e a rotação de mecanismos de ação dos ingredientes ativos, visando evitar o desenvolvimento de resistência da praga.

A tecnologia de aplicação também é determinante no sucesso do controle via pulverização de inseticidas na parte aérea das plantas. Quanto ao horário da aplicação é preferível fazê-la a partir do final da tarde até o início da manhã. Também devem ser observadas as condições meteorológicas (temperatura, umidade, vento, etc.), o volume da calda, o tamanho de gotas (pontas e pressão) a velocidade de trabalho, etc. visando melhorar a penetração das gotas no dossel e a cobertura da aplicação.

 

Crislaine Sartori Suzana - Engenheira Agrônoma formada pela Universidade Federal de Santa Maria, campus Frederico Westphalen – RS (2012). Mestre em Agronomia, área de concentração: Produção Vegetal, pela UPF – Universidade de Passo Fundo-RS. Doutoranda em Agronomia na UPF, linha de pesquisa: Proteção de Plantas, macroprojeto: Manejo de Pragas em Plantas de Lavoura, sob orientação do Prof. Dr. José Roberto Salvadori.

José R. Salvadori¹; Crislaine S. Suzana²

¹ Professor de Entomologia, PPGAgro/FAMV/UPF, Passo Fundo - RS, salvadori@upf.br.
² Doutoranda, PPGAgro/FAMV/UPF, bolsista CAPES.

SOBRE O

ESPECIALISTA

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Dr. JOSÉ ROBERTO SALVADORI

FAMV – Rio Grande do Sul

Professor de Entomologia Agrícola (curso de Agronomia) e de Pragas das Plantas e Manejo de Pragas (Pós-graduação em Agronomia) da FAMV – UPF. Pesquisador aposentado da Embrapa (1980 a 2009), na área de Entomologia, em Dourados (MS) e em Passo Fundo (RS). [Leia mais]

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