E eis que ressurge Helicoverpa armigera

16/03/2017 15:02:18

Atualizado:

26/09/2017 15:38:51

Caso alguém perguntasse como anda a Helicoverpa armigera no Brasil, a resposta seria quase que por unanimidade essa: “H. armigera já não é problema, hoje sabemos lidar com essa praga”. Ledo engano, estamos as voltas com mais uma safra agrícola de verão e, surpresa ou não, percebe-se, a medida que os plantios progridem, que os surtos da praga tem se multiplicado, e suas populações nas áreas vem aumentando em índices preocupantes.

Pensar que essa praga tenha desaparecido nas safras passadas foi um erro cometido por muitos, pois na verdade, desde a sua identificação oficial no Brasil, mesmo que em populações reduzidas, sua presença nunca deixou de ser observada, principalmente em culturas como algodão, tomate, milho, feijão e soja. Constata-se, porém, em relação aos ataques de maior intensidade uma alternância de anos e se formos um pouquinho mais ousados, e levando em consideração os relatos de Heliothinae na soja anteriores a 2013, podemos aventar a possibilidade destes surtos terem, por enquanto, uma frequência quadrienal (safra 2005/06, 2008/9, 2012/13 e agora 2016/17), verdade ou não ha um aparente comportamento cíclico, que somente estudos mais aprofundados poderão explicar como serão os próximos anos, mas vislumbra-se um horizonte desfavorável ao produtor e altamente favorável a praga, pois estamos longe do ideal em relação ao estabelecimento do manejo integrado de H. armigera no Brasil.

Alem disso, a alternância de anos, aparenta ser um comportamento comum nos países de origem da praga, sobretudo, quando a presença de hospedeiros e as condições climáticas se apresentam favoráveis. Fato muito frequente nos ambientes agrícolas brasileiros, pois temos uma agricultura que não cessa e um clima, na maioria das regiões, extremamente adequado a esta lagarta, perpetuando, não somente essa, mas também outras espécies fitófagas nos cultivos agrícolas.

A efetividade de algumas ferramentas químicas e da própria tecnologia Bt para controle da H. armigera não deve ser ignorada, pois proporcionou essa aparente tranquilidade desses últimos anos em relação ao ataque da lagarta, contudo em momento algum poderia ser afirmado que H. armigera no Brasil era um problema superado, mesmo porque a ferramenta química passou a ser a principal, senão única tática de controle, o que torna insustentável ao longo do tempo, qualquer ferramenta de controle sob o ponto de vista do Manejo Integrado de Pragas.

Assim apesar de estarmos apenas iniciando a safra 2016/17, o que vem causando preocupação são as inúmeras constatações da presença de H. armigera em diferentes pontos da região Centro-Oeste do Brasil, pois alem do Mato Grosso e Goiás, agora Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Bahia, já registram casos de áreas de pousio ou então áreas recém-emergidas de soja, principalmente cultivos não Bts, infestadas com ate seis lagartas dessa espécie por metro. Algumas destas áreas de soja, com lagartas grandes (L5/L6) e outras com lagartas provenientes, provavelmente, de ovos colocados por fêmeas nas plântulas de soja. Sem contar que ha relatos de ate três aplicações em sequencia, para controle da praga. Portanto, sem que isso tenha o intuito de causar alardes, os produtores devem manter a atenção de forma redobrada, principalmente no estabelecimento das áreas de plantio e se forem necessárias, medidas de controle devem ser adotadas. Para tanto, temos a disposição dos agricultores ferramentas importantíssimas que ainda podem manter essa praga sob controle, dentre elas podemos citar as tecnologias Bts, os tratamentos de semente, os produtos biológicos, como Bt e baculovirus, a liberação de inimigos naturais, como o Trichogramma, atrativos alimentares para adultos, feromonios, bem como inseticidas para diferentes fases da lagarta, entre outros.

Entretanto antes mesmo de se adotar qualquer ferramenta de controle, torna-se imprescindível o monitoramento das áreas, antes do plantio, visando plantas espontâneas, tigueras, soqueiras e plantas daninhas e após o plantio mantendo monitoramentos no mínimo semanais, com avaliação inicial em um metro de linha dos trifólios fechados e recém-abertos, local preferencial da lagarta e em seguida prosseguir com a batida de pano conforme o recomendado.

A partir da presença da H. armigera decidir, juntamente com o técnico responsável, quais seriam as ferramentas mais adequadas para o controle efetivo da praga, porem permanecer em alerta mesmo após seu controle, pois não sabemos ainda se esses surtos permanecerão somente nas fases vegetativas ou prosseguirão também nas fases reprodutivas onde, seguramente, a praga pode fazer estragos irreversíveis.

Por fim, não devemos repetir erros, pois essa não é uma praga qualquer já causou muitos problemas em países como Austrália, China, Paquistão, Portugal, Itália, entre outros, obrigando produtores a enormes gastos na tentativa de controla-la. Algo parecido com o que houve no Brasil, pois foram bilhões de reais perdidos no ano da sua constatação oficial, porem parece que esse prejuízo ficou esquecido na memória.

Dra. Cecilia Czepak
Professora Titular da Escola de Agronomia/UFG

SOBRE O

ESPECIALISTA

Saiba mais

Dra. CECILIA CZEPAK

Escola de Agronomia da UFG – Goiás

Professora titular da Escola de Agronomia da UFG (Univ. Federal de Goiás): disciplina de Manejo Integrado de Artrópodes Pragas para graduação e pós-graduação. Atua com manejo integrado de pragas em culturas de soja, tomate, algodão, milho e feijão. [Leia mais]

LEIA MAIS

NOTÍCIAS

Vários temas são fundamentais para a manutenção da produtividade agrícola. Entre eles, o manejo de pragas, doenças e daninhas e a eficiência de produtos. O Portal Syngenta prepara, constantemente, conteúdos jornalísticos realizados a partir de fontes de informação como engenheiros agrônomos e produtores rurais. Veja ao lado uma seleção dessas reportagens. Boa navegação!