Afinal, como deve ser o manejo de doenças na soja a partir de agora?

15/06/2017 10:26:04

Atualizado:

29/06/2017 13:50:10

A cultura da soja é comprometida por doenças importantes, a principal delas é a ferrugem asiática. Em cultivares suscetíveis, o seu controle depende da aplicação de fungicidas como triazóis, estrobilurinas e carboxamidas. Todos esses grupos são denominados específicos, ou seja, atuam em uma única enzima do fungo alvo, o que os tornam mais suscetíveis à redução na sensibilidade pelo fungo.

A resistência de Phakopsora pachyrhizi, agente causal da ferrugem asiática da soja, é caso raro no mundo, devido a sua resistência múltipla aos diversos grupos de fungicidas: triazóis (safra 2006/07), estrobilurinas (safra 2013/14) e primeiros sinais nas carboxamidas (safra 2015/16). Esta adaptação do fungo aos fungicidas ameaça o controle da doença e a sustentabilidade da soja no Brasil. A obtenção de compostos com mecanismos de ação diferentes dos atuais é cara e demorada. Por isso, o manejo da ferrugem nos próximos anos dependerá das ferramentas atualmente disponíveis.

Resistência ou redução de sensibilidade? As principais modificações para resistência envolvem alterações no sítio de ação do fungicida, dificultando seu encaixe na enzima alvo, utilização de rota metabólica alternativa àquela inibida, e/ou aumento na sua capacidade de metabolizar a substância tóxica. Essas alterações variam entre indivíduos de uma população, assim como entre populações de diferentes locais, e afetam parcial e variavelmente o desempenho dos fungicidas. Por isso, a expressão “redução de sensibilidade” é mais adequada à realidade dessa safra, em vez de resistência.

O caso mais recente de redução na sensibilidade de Phakopsora pachyrhizi ocorreu em relação às carboxamidas, conforme relato do Frac (Comitê de Ação para Resistência de Fungos a Fungicidas) Brasil, em 8/3/17. Em campo, sua frequência tem sido maior no Sul e Sudeste, e menor ou ausente nas demais regiões, sendo proporcional à intensidade da ferrugem e inversamente contrária à robustez do programa de tratamentos, como naqueles com número maior de aplicações, já iniciadas na fase vegetativa da cultura, realizadas em intervalos de até 15 dias, e onde os fungicidas à base de carboxamida foram combinados com triazóis e/ou compostos multissítios. Importante lembrar que a redução na sensibilidade a um tipo de fungicida não significa o seu abandono: as carboxamidas e todos os demais compostos continuam fundamentais para o controle da ferrugem e outras doenças.

A redução no controle deve ser compensada melhorando-se o manejo como um todo, evitando-se a safrinha de soja, enfatizando o vazio sanitário, eliminando a soja guaxa/tiguera, utilizando cultivares resistentes e/ou de ciclo mais curto, manejando época de semeadura e utilizando tecnologia de aplicação que realmente seja adequada às particularidades dos fungicidas. Estes, por terem baixa ou nenhuma mobilidade nos tecidos da planta, são os mais dependentes de uma aplicação bem realizada.

Também é importante limitar um mesmo tipo de fungicida específico a, no máximo, duas aplicações por ano, e utilizar as doses indicadas pelo fabricante. Além disso, os programas de tratamento devem alternar e/ou combinar fungicidas com diferentes mecanismos de ação. A redução da sensibilidade aos fungicidas traz um custo adaptativo para os mutantes resistentes, os quais teriam maior dificuldades para sobreviver quando a soja estiver ausente no campo. No início de uma nova safra, os indivíduos resistentes podem ser parte menor da população, mas aumentam sua frequência rapidamente com o uso contínuo de fungicidas semelhantes. Dessa forma, a diversidade de mecanismos de ação, em mistura ou sequência, é fundamental para manter o equilíbrio entre indivíduos sensíveis e resistentes.

Os fungicidas multissítios (ex: mancozebe, clorotalonil, cúpricos e outros), com ação sobre várias enzimas dos fungos, e praticamente imunes à redução de sensibilidade, são fundamentais nesse processo. O reforço com fungicidas que contenham ciproconazol também é muito importante, assim como o uso futuro de morfolinas.

SOBRE O

ESPECIALISTA

Saiba mais

Dr. CARLOS ALBERTO FORCELINI

Universidade de Passo Fundo – Rio Grande do Sul

É professor titular da Universidade de Passo Fundo (RS). Tem experiência na área de Agronomia, com ênfase em Epidemiologia, atuando principalmente nos seguintes temas: controle, epidemiologia, tecnologia de aplicação e doenças em cereais de inverno e soja. [Leia mais]

LEIA MAIS

NOTÍCIAS

Vários temas são fundamentais para a manutenção da produtividade agrícola. Entre eles, o manejo de pragas, doenças e daninhas e a eficiência de produtos. O Portal Syngenta prepara, constantemente, conteúdos jornalísticos realizados a partir de fontes de informação como engenheiros agrônomos e produtores rurais. Veja ao lado uma seleção dessas reportagens. Boa navegação!