Dra. Jurema Rattes: incidência da cigarrinha-do-milho aumenta rápido

09/06/2017 11:26:47

Atualizado:

23/08/2017 10:24:11

A incidência da cigarrinha-do-milho Dalbulus maidis tem aumentado de modo rápido, principalmente em lavouras da região Central do Brasil. A presença de plantas tigueras, que fornecem abrigo e comida para o inseto durante o período de entressafra e de cultivo da soja, está entre os fatores que ajudam a explicar a maior incidência. O tratamento de sementes com inseticidas neonicotinoides, associado a outras estratégias integradas e preventivas, tem mostrado bons resultados no manejo desta praga.


A intensificação do cultivo do milho na safrinha e de sistemas irrigados quebrou a sazonalidade de plantio, proporcionando maior pressão de pragas e doenças específicas, com exposição da cultura durante todo o ano no campo. Aliado a isso, outros fatores como as condições climáticas favoráveis, altas temperaturas e invernos amenos têm favorecido a multiplicação de insetos. Dentre os problemas fitossanitários da cultura do milho, a cigarrinha-do-milho Dalbulus maidis (DeLong & Wolcott) (Hemiptera: Cicadellidae) tem aumentado substancialmente com frequência nos últimos anos, exigindo estratégias de controle em função dos prejuízos provocados. 

Um dos possíveis fatores que têm proporcionado o aumento da cigarrinha-do-milho, principalmente na Região Central do Brasil, é a presença de plantas tigueras de milho durante o período de entressafra e de cultivo da soja, já que estas plantas voluntárias são as principais hospedeiras da praga e das doenças transmitidas por ela. Em função da adoção da tecnologia de resistência a herbicidas presentes em grande parte dos materiais disponíveis no mercado, essas plantas de milho não são devidamente controladas na cultura da soja, servindo de alimento, abrigo e de fonte de reprodução para diversos insetos-praga. O aumento da oferta de alimento durante o período de entressafra e de cultivo da soja proporciona a manutenção da cigarrinha D. maidis no ambiente, favorecendo a multiplicação e ainda a manutenção de plantas infectadas, com viroses e enfezamentos.

A manutenção da praga no ambiente durante a entressafra e o cultivo da soja tem gerado altas densidades populacionais na fase inicial de desenvolvimento da cultura do milho, período de maior suscetibilidade ao ataque da praga com elevados prejuízos aos produtores.

Os adultos de D. maidis medem cerca de 4mm de comprimento e menos de 1mm de largura. Embora a coloração predominante seja palha, no abdômen possui manchas negras, que podem ser maiores nos indivíduos desenvolvidos em climas com temperaturas amenas. Na cabeça destacam-se duas manchas negras com o dobro do diâmetro dos ocelos. Possuem como característica duas fileiras de espinhos nas tíbias posteriores (Oliveira et al, 2003, Waquil, 2004). Durante a fase adulta, esses insetos podem ser facilmente visualizados no interior do cartucho das plantas de milho. O estabelecimento ocorre na fase inicial de desenvolvimento da cultura, porém é capaz de se manter em altas populações durante todas as fases de desenvolvimento do milho. A longevidade média dos adultos é de 16,3 dias para machos e de 42,1 dias para fêmeas (Marín 1987). No entanto, esse período pode chegar a 106 dias em condições de temperaturas mais baixas (Tsai, 1988).

As fêmeas depositam os ovos de maneira isolada, em pares ou em grupos de cinco a seis ovos no limbo foliar ou na parte adaxial das folhas, de preferência na metade basal das primeiras folhas das plantas jovens. A postura é endofítica, ocorrendo dentro do tecido da nervura central das folhas da planta. Cada fêmea deposita aproximadamente 14 ovos por dia, podendo depositar durante seu ciclo de vida até 611 ovos. Os ovos são translúcidos, com o formato de uma banana, medem menos de 1mm x 0,2mm e são fáceis de observar com a folha do milho contra a luz. Depois de sete a dez dias, se tornam leitosos. A biologia da cigarrinha é diretamente afetada pela temperatura. Sob condições de temperaturas amenas não ocorre a eclosão dos ovos. No entanto, quando incubados a temperaturas acima de 20ºC ocorre a eclosão normal das ninfas (Marín 1987).

Durante a fase de ninfa, passam por cinco instares, que duram em torno de 15 dias. As ninfas tendem a permanecer estáticas, alimentando-se na folha, e só se movem se forem incomodadas (Oliveira et al, 2003, Waquil, 2004). A fase de ninfa até a formação de adultos ocorre, geralmente, entre 20 dias e 25 dias, sendo esse período influenciado pela temperatura ambiente.

A cigarrinha D. maidis possui poucos hospedeiros, com multiplicação restrita ao gênero Zea. Há relatos de outros hospedeiros, como a cana-de-açúcar, o sorgo e algumas espécies de plantas daninhas, como o capim-pé-de-galinha (Eleusine indica) e o capim-colchão (Digitaria horizontalis) (Oliveira et al, 2016). Além de alguns hospedeiros alternativos para D. maidis, espécies da família Poaceae, como o capim-colonião (Panicum maximum), o capim-marmelada (Brachiaria plantaginea) e a Brachiaria decumbens podem ser infectadas por fitoplasmas (Hass, 2010), no entanto, segundo Sabato et al (2015) é necessária uma melhor avaliação da importância epidemiológica dessas espécies vegetais na perpetuação e disseminação desse patógeno na cultura do milho.

A cigarrinha D. maidis é um inseto de ampla ocorrência, com presença tanto nas lavouras da safra de verão quanto na safrinha. Movimenta-se dentro e entre lavouras de milho e nas plântulas. A cigarrinha D. maidis é considerada uma praga inicial em milho, visto que ocorre nas plântulas de milho logo após a emergência da cultura, sendo proveniente de outras lavouras de milho (Oliveira et al, 2013a). Ao longo do ciclo do milho, a população desse inseto-vetor aumenta desde os estádios iniciais de desenvolvimento até o florescimento das plantas, em função da produção de novas gerações de insetos, e da entrada contínua de mais cigarrinhas adultas, especialmente quando há milho em estádios mais adiantados nas imediações (Oliveira et al, 2015b). Em áreas infestadas, as cigarrinhas podem ser facilmente observadas, alimentando-se, preferencialmente, na região do cartucho da planta de milho (Vianna et al, 2002; Waquil, 2004).

Embora a cigarrinha D. maidis possa provocar danos diretos através da sucção da seiva nas plantas de milho, comprometendo o desenvolvimento da planta, e principalmente o sistema radicular, essa espécie é mais importante devido à sua capacidade de transmitir de forma persistente e propagativa o vírus da risca do milho (maize rayado fino virus – MRFV) e dois molicutes, associados aos enfezamentos Spiroplasma kunkelii e o maize bushy stunt fitoplasma (MBS-fitoplasma), agentes causais, respectivamente, das doenças do milho denominadas de enfezamento pálido e enfezamento vermelho (Sabato et al, 2015). Os molicutes são responsáveis por infecções e entupimentos dos tecidos do floema. A crescente importância do complexo dos enfezamentos verificados nos últimos anos, nos cultivos de milho tardios e de safrinha, está relacionada diretamente ao aumento da população do inseto-vetor, a cigarrinha D. maidis.

Os agentes causais dos enfezamentos são adquiridos pela cigarrinha quando se alimentam de plantas de milho doentes. Esses micro-organismos multiplicam-se nas cigarrinhas (inseto-vetor) e são transmitidos para plântulas de milho jovens e sadias, quando a cigarrinha migra de lavouras maduras para as recém-implantadas. As cigarrinhas infectadas conseguem transmitir os fitopatógenos para as plantas sadias por um tempo de alimentação relativamente curto, de aproximadamente uma hora (Vianna et al, 2002; Waquil, 2004; Oliveira & Oliveira, 2010). A transmissão de fitopatógenos ocorre na fase inicial de desenvolvimento da cultura do milho, fase em que a planta apresenta menor diâmetro de colmo, permitindo com que a cigarrinha D. maidis consiga alcançar os vasos de condução de seiva (floema) com o estilete. Em consequência das infecções nos tecidos do floema ocorre um menor desenvolvimento das plantas e o enfraquecimento dos colmos, podendo se dar a queda das plantas em função da ação de ventos.

Os sintomas do enfezamento vermelho são caracterizados pela descoloração e o avermelhamento da margem e do ápice das folhas. Em infestações severas, todo o limbo foliar pode apresentar características típicas do enfezamento. É possível verificar também o perfilhamento das plantas, seja nas axilas foliares ou na base da planta, e a proliferação de espigas, além de redução na altura. Os sintomas de enfezamento normalmente são mais visíveis a partir do florescimento e próximos à maturação da cultura, principalmente em regiões de temperatura mais alta (Reis et al, 2004; Sabato et al, 2002).

Os sintomas do enfezamento pálido caracterizam-se pela presença de faixas cloróticas ou esbranquiçadas, que se estendem da base em direção ao ápice das folhas, podendo apresentar avermelhamento das folhas inferiores. Plantas infectadas demonstram crescimento reduzido, espigas menores com grãos frouxos, pequenos e descoloridos ou manchados. Dependendo da cultivar, pode apresentar perfilhamento e secamento precoce. Os sintomas foliares se manifestam a partir do florescimento das plantas e os demais sintomas depois da formação e enchimento de grãos (Balmer & Pereira, 1987; Fernandes & Oliveira 1997).

Plantas de milho infestadas com vírus do rayado fino apresentam sintomas da doença entre sete dias e dez dias após a inoculação, na forma de pequenos pontos cloróticos alinhados. Com o crescimento desses pontos, se fundem e formam uma risca fina. Em cultivares suscetíveis, a infecção precoce pode acarretar redução de crescimento e aborto das gemas florais.

A intensidade dos danos na cultura do milho depende da fase fenológica em que a cultura é atacada pela cigarrinha infectada. Quando o ataque ocorre na fase inicial da cultura (V1 – V3-4), maiores são os prejuízos e quanto mais tardiamente as cigarrinhas infectadas chegam à cultura, menores são os danos e prejuízos.

Manejo da cigarrinha-do-milho

As estratégias de manejo da cigarrinha D. maidis devem ter início antes da semeadura do milho, através da eliminação de plantas tigueras no período de entressafra e durante o cultivo da soja, com intuito de eliminar as possíveis fontes de alimento e de reprodução da praga, para a redução na sua população na fase inicial de desenvolvimento do milho semeado em sequência. Tais medidas, além das possíveis reduções das primeiras gerações de cigarrinhas, têm por objetivo a redução de plantas de milho infectadas nesses períodos, que servem de fonte de aquisição e posterior inoculação desses patógenos nos cultivos. No entanto, como se trata de um inseto com alto potencial biótico e com grande capacidade de migração a longas distâncias para colonizar campos de milho recém-emergidos, essas estratégias devem ser realizadas em conjunto com todos os produtores de uma mesma região.

O uso de materiais tolerantes, ou menos suscetíveis, é o método de controle mais eficiente e recomendado para o controle dessas doenças transmitidas pela cigarrinha D. maidis. No entanto, nem todos os materiais de milho disponíveis no mercado possuem tolerância satisfatória, assim, cabe ao produtor fazer a melhor escolha no momento da aquisição das sementes e optar por materiais que apresentem maior tolerância, com intuito de diminuir as perdas.

Como os danos mais severos ou a transmissão de fitopatógenos ocorrem na fase inicial de desenvolvimento da cultura do milho, medidas de controle na fase inicial são extremamente necessárias por protegerem as plântulas neste período, além de promover ou reduzir a população inicial, evitando uma explosão populacional da cigarrinha D. maidis nos estágios subsequentes. Entre as estratégias químicas de controle adotadas na fase inicial, o tratamento de sementes com inseticidas neonicotinoides é fundamental para reduzir a população da praga nesse período de desenvolvimento da cultura e tem proporcionado resultados muito eficazes no controle desta praga. Em trabalhos realizados pela Rattes Consultoria e Pesquisa Agronômica em parceria com a Universidade de Rio Verde (UniRV), na safra atual, os inseticidas disponíveis no mercado para tratamento de sementes, realizados com as moléculas tiametoxan, imidacloprido, e clotianidin proporcionaram supressão de até 80% da população de D. maidis, até 15 dias após a emergência da cultura.

Após esse período, dependendo da pressão e região, se fazem necessárias aplicações foliares de inseticidas. As aplicações foliares devem ser realizadas com base nas amostragens das populações da praga, com intuito de complementar o tratamento de sementes e de controlar as populações em função da produção de novas gerações dentro do mesmo cultivo ou de insetos migrantes de áreas vizinhas. Até o momento não existe um Nível de Dano Econômico (NDE) que possa ser adotado em função de ser um inseto transmissor de fitopatógenos. Assim, os danos não são proporcionais ao tamanho da população, mas sim em função da capacidade de disseminação dos agentes causais dos enfezamentos, o que torna necessário o uso de medidas preventivas. As pulverizações foliares são realizadas normalmente até os estádios V8 – V9 na cultura do milho, podendo se prolongar até a fase de pendoamento.

Dentre as possíveis estratégias de manejo desta praga, o produtor tem que conscientizar que com a adoção de uma única, de modo isolado, não vai obter sucesso no controle da D. maidis.


Jurema F. Rattes, Universidade de Rio Verde - UniRV
Gilvane Luis Jakoby, Rattes Consult. Pesq. Agronômica

Texto originalmente publicado na edição de junho de 2017 da revista Cultivar - Grandes Culturas ( www.revistacultivar.com.br )

SOBRE O

ESPECIALISTA

Saiba mais

Dra. JUREMA RATTES

UniRV – Goiás

É professora titular e pesquisadora da Faculdade de Agronomia da UniRV (Universidade de Rio Verde). Tem experiência em entomologia agrícola, com ênfase em bioecologia das principais pragas de ocorrência no Cerrado e em manejo de pragas de grandes culturas. [Leia mais]

LEIA MAIS

NOTÍCIAS

Vários temas são fundamentais para a manutenção da produtividade agrícola. Entre eles, o manejo de pragas, doenças e daninhas e a eficiência de produtos. O Portal Syngenta prepara, constantemente, conteúdos jornalísticos realizados a partir de fontes de informação como engenheiros agrônomos e produtores rurais. Veja ao lado uma seleção dessas reportagens. Boa navegação!