Manejo do conhecimento

16/03/2017 14:56:11

Atualizado:

05/07/2017 11:33:52

A cada ano a dinâmica das pragas que causam prejuízos à cultura da soja no Brasil passa por alterações que influenciam na incidência e nos danos provocados às lavouras. Por isso conhecer o comportamento destes insetos para estabelecer um bom planejamento de estratégias de manejo integrado é indispensável para obter sucesso nesta atividade

Mudanças na dinâmica de pragas da sojicultora brasileira ocorrem a cada ano. Novas pragas, mudanças nos tratos culturais, englobando desde os aspectos nutricionais, plantas daninhas e doenças, além de alterações no sistema de produção, têm influído neste tipo de ocorrência.

O Manejo Integrado de Pragas na cultura da soja se baseia em alguns “pilares”, sendo o conhecimento do inseto e a amostragem, fundamentais para suportar qualquer recomendação.

Nos últimos anos, algumas lagartas diminuíram sua importância no sistema, como Anticarsia gemmatallis, umas das principais desfolhadoras da cultura em diversos países. No entanto, neste novo século, a expansão para o cerrado, mudanças no sistema de produção, com o monocultivo, e mesmo a baixa rotação de culturas, fez com que lagartas como a falsa-medideira (Chrysodeixis includens) ganhassem destaque maior.

Neste sistema de produção outras lagartas surgiram e se adaptaram às condições brasileiras, como por exemplo, a Helicoverpa armigera, presente atualmente nas diversas regiões produtoras, causando grandes prejuízos em função do seu ataque.

Outra praga que depois de diminuir seus prejuízos na grande maioria das lavouras tem retomado posição de destaque nas últimas safras é a lagarta do gênero Spodoptera, (S.frugiperda, S.eridania e S.cosmioides). Praga principal em milho, no caso de S.frugiperda, tem reconquistado importância, mesmo com o advento de tecnologias implantadas no sistema de produção para combatê-las.

O conhecimento do aspecto da biologia destas pragas ajuda a entender e traçar estratégias para o seu manejo. Os adultos de H. armigera apresentam as asas dianteiras amareladas-palha, enquanto as dos machos são cinza-esverdeadas com uma banda ligeiramente mais escura no terço distal e uma pequena mancha escurecida no centro da asa. As asas posteriores são mais claras, apresentando uma borda marrom na sua extremidade apical. Os ovos contém coloração clara com estrias transversais e um formato achatado na parte superior. As lagartas mostram coloração variável em função da alimentação, clima, população, podendo ser verdes, marrom a escura. Uma das características das lagartas é a de apresentar na base dos espiráculos (cerdas), no 2º e 8º segmento, aspecto liso, sem os pequenos pelos, além de apresentarem uma diferença na mandíbula. As lagartas se alimentam de tecido novos, podendo produzir um tipo de teia.

A partir do quarto ínstar, as lagartas apresentam tubérculos abdominais escuros e bem visíveis na região dorsal do primeiro segmento abdominal, os quais estão dispostos na forma de semicírculo, aparentando formato de “sela”, sendo esta característica determinante para a identificação de lagartas de H. armigera (Czepak et al 2013).

A falsa-medideira é a lagarta responsável por maiores prejuízos na região Centro-Oeste do Brasil. Sua ocorrência é generalizada principalmente nos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro e coincide com o fechamento das entrelinhas da cultura da soja. Esta fase apresenta diversos fatores que levam a dificuldade de manejo, como aspectos relacionados à tecnologia de aplicação, problemas para atingir o alvo, além da aplicação de fungicidas prejudicarem o fungo Nomurae rileyi, importante ferramenta do controle biológico na cultura da soja.

Culturas hospedeiras no caso do Centro-Oeste como algodão, feijão entre outras, fizeram com que esta praga aumentasse em população e prejuízos. O adulto da falsa medideira é uma mariposa de coloração marrom acizentada, com duas manchas prateadas no primeiro par de asas; medindo em torno de 35mm de envergadura, com as asas posteriores também de coloração marrom. Os ovos são colocados de forma isolada, na maioria dos casos na página inferior das folhas e no terço médio das plantas. A fêmea pode ovipositar mais de 500 ovos durante o seu período de vida.

Dentro de cinco dias eclodem as lagartas, que se alimentam das folhas, apresentando coloração verde claro, com linhas brancas longitudinais sobre o dorso. Apresentam apenas três pares de falsas pernas na região abdominal, o que obriga o seu deslocamento à semelhança das lagartas “mede-palmo” ou “medideira” durante todo o seu desenvolvimento. Crescem rapidamente e podem atingir em torno de 50 mm de comprimento, com 6 ínstares. Esta espécie apresenta comportamento diferenciado de outras lagartas, desenvolvendo-se no terço inferior e médio das plantas de soja, o que dificulta o seu controle. Após a passagem de larva se transformam em pupas nas folhas. Durante todo o desenvolvimento as lagartas raspam o tecido foliar, sem se alimentarem das nervuras, conferindo às folhas um aspecto rendilhado.

As lagartas começam nas folhas do terço médio e baixeiro das plantas, vindo a atacar depois a parte superior das plantas. Quando detectadas tardiamente, já pode ter passado o nível de controle estabelecido para o seu manejo.

Novas ferramentas como a biotecnologia são realidade para C. inclundes, como é o caso da soja Bt, que até o momento apresenta controle satisfatório. No entanto grande parte da área desta cultura no país será de soja convencional (não Bt) na safra 2015/2016. Vale destacar ainda a recomendação da pesquisa, para o bom funcionamento/perpetuação da tecnologia Bt: é necessária a utilização de no mínimo 20% de refugio estruturado.

Apesar de uma nova ferramenta que trará maior comodidade ao produtor, a biotecnologia existente esbarra em pragas não alvos como o complexo de Spodoptera. E de certa forma, como em soja convencional não Bt, a amostragem não poderá ser esquecida, além de requerer maior qualidade de execução. É outro “pilar” que pode levar ao sucesso ou insucesso de toda a cultura.

Ao conhecer a sua lavoura é possível racionalizar a utilização dos inseticidas, além de melhorar a estratégia de controle. O uso do pano de batida é fundamental para amostragem precisa na cultura da soja, sendo recomendada a utilização da batida de somente umas das linhas da cultura, a fim de verificar a presença de lagartas. Um pano com 1 metro de comprimento pode ser desenrolado na outra linha. Porém é importante ressaltar que algumas pragas, como por exemplo H. armigera, podem ficar presas às vagens em certos momentos e não cair no pano, necessitando uma analise no ponto amostral das plantas em seu todo. Na cultura da soja, nas fases vegetativas, pode também ocorrer de em certos momentos as lagartas ficarem escondidas, necessitando o desenrolar de folhas (onde também o pano não será a medida mais eficiente).

O caminhar pela lavoura com diversas metodologias pode ajudar a identificar os primeiros “focos” principalmente para lagartas do gênero Spodoptera. A descoberta dos primeiros focos auxilia na utilização das ferramentas. A grande maioria dos inseticidas apresenta controle de lagartas pequenas (até 0,7 cm para H. armigera e até 1,0 cm para demais lagartas).

Diversos trabalhos tem mostrado a importância do uso de inseticidas seletivos aos inimigos naturais na cultura da soja. As listas de produtos seletivos podem ser encontradas nas recomendações técnicas para cultura da soja, tanto para a região central como para a região Sul, do Brasil. São elaboradas pela Embrapa, em conjunto com outros órgãos, em Reuniões técnicas. Outras instituições também vêm desenvolvendo estas listas como as Fundações que as apresentam para suas regiões.

Vale destacar que rotação de modos de ação nas diversas lagartas encontradas na cultura tende a favorecer o equilíbrio do sistema. Para cada região do Brasil observa-se comportamento diferente das tecnologias nas espécies. Em H. armigera observa-se funcionamento interessante das Diamidas, no entanto somente o emprego de uma estratégia pode levar a falhas de controle em determinadas espécies, além da pressão de seleção, podendo favorecer problemas de resistência no futuro. Neste caso S. frugiperda demonstra variação de eficiência dos diversos grupos químicos e moléculas, no Brasil, sendo em casos como este a rotação de modos de ação um dos pontos iniciais para o bom manejo desta praga.

Diante desta diversidade de pragas e dos problemas encontrados é importante elencar a necessidade dos diversos modos de ação, desde os Reguladores de Crescimento de Insetos, Aceleradores da ecdise, Diamidas, Pirazois, Spinosinas, Oxadiazina, Carbamatos, Organofosforados e Piretróides. Novos inseticidas para lagartas se encontram em estudo, sendo bem vindos para o combate destas pragas, como mais uma opção ao produtor e ao técnico, a fim de rotacionar o modo de ação ou mesmo encaixá-lo dentro do MIP em ambiente com a tecnologia Bt.

Outro ponto a salientar reside no fato de que o produtor ao utilizar o controle químico em aplicações “carona” deve lembrar algumas questões, como episódios em que se aplica em condições de baixa infestação ou mesmo de alta infestação. Os índices de controle devem ser trabalhados para as diversas pragas, haja visto a questão de custo do tratamento, eficiência, além dos problemas relatados anteriormente no Brasil, como o uso em demasia de diversos grupos químicos. Ainda é importante relatar fatores como incompatibilidade e fitotoxicidade de algumas associações às culturas.

Os melhores resultados no controle químico de insetos, são obtidos quando da detecção inicial no campo, encontrando-se o inicio da infestação, em estádios de menor desenvolvimento da praga. Nestas fases proporciona a utilização dos diversos grupos químicos. Uma problemática do campo é realização de aplicações nos picos populacionais, após o aparecimento de lagartas, em índices superiores aos recomendados para o controle da praga, comprometendo todo o manejo. Nestas fases a praga consegue causar prejuízos muitas vezes irreversíveis, afetando seriamente a produtividade da cultura, além de demandar a necessidade das maiores doses recomendadas, ou mesmo a utilização de aplicações sequenciais, onerando mais o custo de produção.

Aplicações com altos índices de infestação levam a sobras, haja visto que diversos fatores comprometem a eficiência do processo. Uma conta simples deve ser realizada, se uma praga apresenta índice de controle de 10 lagartas por metro, ao aplicar inseticida com índice de 50 lagartas por metro, mesmo com bom defensivo (80% de controle), sobrará 10 lagartas, que é o índice estabelecido, necessitando o produtor/técnico reaplicar naquela área.

Uma pergunta a realizar para todos os envolvidos no processo é quanto custa o conhecimento? A resposta é ruim, mas muitas vezes é percebida apenas quando se tem um prejuízo na produtividade.

Somente um bom planejamento e estratégias de MIP podem levar ao sucesso da atividade.

SOBRE O

ESPECIALISTA

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Dr. GERMISON VITAL TOMQUELSKI

Fundação Chapadão - Mato Grosso do Sul

Pesquisador da Fundação Chapadão e professor de mestrado em Agronomia na UFMS (desde 2012). Tem no currículo palestras em diversas regiões agrícolas do Brasil e também no exterior. Atua como professor universitário desde 2007. [Leia mais]

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