Mosca branca, a cigarrinha mais importante do Brasil

16/03/2017 14:54:24

Atualizado:

21/08/2017 16:41:32

A mosca branca, Bemisia tabaci (Gennadius, 1889) (Hemiptera: Aleyrodidae) não é uma mosca, mas uma cigarrinha. A sua origem provável é o oriente, porém hoje está distribuída em praticamente todo o globo terrestre habitável. No Brasil os primeiros relatos da B. tabaci foram realizados na década de 1920, porém a partir da década de 1990 o inseto vem aumentando a sua importância. Atualmente se considera a existência de biótipos de B. tabaci para explicar as diferenças na capacidade de colonizar plantas, transmitir vírus, resistência a inseticidas, que se observam entre as diferentes populações do inseto. Porém, De Barro et at. (2014) sugeriram que a B. tabaci é uma espécie críptica, ou seja, constitui um grupo de espécies morfologicamente idênticas, mas que não cruzam entre si, composta de pelo menos 24 espécies distintas. No Brasil hoje temos identificados o biótipo B (Middle East Asia-Minor I, MEAM1); New World (NW) e New World 2 (NW2), biótipos indígenas das Américas (Barbosa et al. 2014) e Biótipo Q (Mediterranean, MED) (Krause-Sakate 2014). O biótipo B coloniza diversas plantas cultivadas ou não, tendo a soja como importante hospedeira. O biótipo Q parece estar ainda restrito ao Rio Grande do Sul e se caracteriza pela capacidade de desenvolver resistentes a inseticidas.

A B. tabaci passa por quatro estádios jovens, sendo que o último deles, erroneamente chamado de pupa, não se alimenta em boa parte de sua existência, permanecendo livre da ação dos inseticidas sistêmicos e de profundidade. Altas populações de “pupas” revelam a ineficácia dos controles realizados para o manejo das ninfas e o tamanho da geração seguinte de adultos. A “pupa” se caracteriza pela cor amarelada e pela presença de “olhos” vermelhos, os quais pertencem na realidade ao adulto abrigado no seu interior. Os danos da B. tabaci podem ser diretos e indiretos. Entre os danos diretos está a sucção da seiva e o efeito deformante na planta causado pela saliva tóxica do inseto. A fumagina – fungo de cor negra que cobre as folhas da soja – e os vírus são os danos indiretos. A soja é hospedeira de diversos vírus, sendo a B. tabaci a principal vetora. Há fortes indícios de que o vírus do mosaico dourado do feijão (BGMV) está presente em campos de soja no Brasil, entre outros mosaicos. Na soja brasileira os danos diretos e indiretos têm sido medidos e publicados, revelando perdas significativas na produção nas variedades cultivadas atualmente.

Entre os fatores responsáveis pelo aumento da população da B. tabaci estão: plantios consecutivos de soja, feijão e algodão, entre outros hospedeiros cultivados; plantas voluntárias e socas; hospedeiros naturais; altas temperaturas; seca e ambientes com grande estresse por pesticidas. Certamente a falta de manejo das grandes populações de B. tabaci em soja tem contribuído para o aumento da importância do inseto, especialmente no cerrado brasileiro. Embora os fatores chave para o aumento da importância da praga são assunto de grande controvérsia.

O monitoramento do adulto da mosca mostra a tendência geral da população enquanto a amostragem das ninfas e “pupas” fornece uma boa estimativa populacional no campo, porém, ambos são fundamentais no manejo da praga. No momento, o nível de controle para a B. tabaci em soja é o bom senso, pois o estabelecimento dele envolve problemas complexos.

Entre as medidas de controle mais utilizadas na entomologia está a rotação de culturas, a qual deve ser adotada mesmo para uma praga polífaga como a B. tabaci, pois favorece os inimigos naturais, cujas atividades são aprimoradas com as rotações. Levantamentos de campo têm mostrado a ocorrência de inimigos naturais promissores para o controle de ninfas e adultos, os quais devem ser protegidos pelo uso de inseticidas e fungicidas seletivos, pelo menos.

O problema da mosca branca no Brasil tem que ser entendido como um problema sistêmico e deve ser assumido pelos produtores regionais. A circulação desse inseto entre várias plantas, cultivadas ou não, deve ser monitorada o ano todo, o que nos leva a crer que a interação entre os produtores vizinhos pode ser a forma mais inteligente e eficaz no manejo da praga. Os vazios fitossanitários são importantes, porém a sua implantação depende de constante verificação e incentivo, o que pode ser implementado entre vizinhos.

O controle químico é o mais usado contra a B. tabaci, no entanto, quase sempre, mal utilizado. O contato do inseticida com as formas imaturas do inseto na face inferior (abaxial) das folhas e na parte inferior da planta, a grande diversidade de hospedeiros e a possibilidade de resistência, devem ser levados em conta na escolha do inseticida e da metodologia de aplicação.

O uso de inseticidas deve levar em conta ainda o modo de ação no inseto e seu estágio de desenvolvimento (ovo, ninfa, “pupa” e adulto), dosagem adequada, entre tantas outras boas práticas agrícolas. Porém, igualmente importante é a responsabilidade de técnicos e produtores, em adotá-las. A recomendação de químicos sem acompanhamento criterioso dos campos é causa de erros crassos e cada vez mais comuns, evidentes, sobretudo, durante períodos de grande incidência da praga.

SOBRE O

ESPECIALISTA

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Dr. RUI SCARAMELLA FURIATTI

UEPG – Paraná

Professor associado e responsável pelo Laboratório de Entomologia Aplicada da UEPG (Univ. Estadual de Ponta Grossa). Tem como linha de pesquisa o manejo integrado de pragas. Atua como consultor na produção, manejo e monitoramento de pragas de hortaliças e grãos. [Leia mais]

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