O mapa do trigo além do sul

Cultivo do cereal tem ganhado espaço em Minas Gerais, São Paulo e regiões do Cerrado, com crescimento de área e produção nos últimos anos

22/03/2018 13:02:41

Atualizado:

22/03/2018 14:09:57

 

Quando se fala em cultivo de trigo no Brasil, Paraná e Rio Grande do Sul lideram com folga. Juntos, os dois estados correspondem a 87,8% da produção nacional do cereal, segundo dados de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Maior produtor do país, o Paraná responde por 63,2% do trigo brasileiro, seguido por Rio Grande do Sul, com 24,6%. Se somados aos 2,2% de Santa Catarina, quinto da lista, a região Sul concentra 90% de toda a produção do país.

Em uma cultura de inverno, que historicamente exige temperaturas amenas para o cultivo, onde estão concentrados os outros 10% da produção nacional?

A maioria está em São Paulo e Minas Gerais com, respectivamente, 4,6% e 3,9% de participação. O restante fica distribuído entre Goiás, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e Bahia, estes dois últimos com apenas 0,1%, aproximadamente.

Em algumas dessas regiões, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o trigo não é considerado uma cultura-alvo, mas é usado para a rotação, o que garante melhor solo e cultivo com menor incidência de pragas e doenças. No entanto, em alguns lugares o cereal vem ganhando espaço, com aumento de produção nos últimos anos:

Minas Gerais

O plantio de trigo vem aumentando no maior estado produtor de café do Brasil. Segundo levantamento da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a produção, que era de 72,7 mil toneladas em 2004, cresceu para 238,5 mil toneladas em 2018. A área plantada mais do que quadruplicou, de 16,7 mil hectares para 81,7 mil hectares.

O Alto Paranaíba é a principal região produtora do estado e responde por 41,01% do trigo mineiro, com 94.867 toneladas em 2017.  Em segundo está o sul de Minas, com 25,96%, seguido pela região central, com 20,62%.

Entre os municípios, o maior produtor é Ibiá, no Alto Paranaíba, que produziu 27.450 toneladas de trigo no ano passado, seguido pelas cidades de Madre de Deus de Minas, Perdizes, Três Corações e São João Del Rei.

“O trigo tem boa adaptação nas regiões do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba por causa das temperaturas frias durante a noite e facilidade de distribuição, já que estão na região central do país”, diz o pesquisador da Embrapa Cerrados, Júlio Albrecht.

São Paulo

Itapeva, Itapetininga e Avaré são as duas cidades do interior de São Paulo que lideram a produção de trigo no estado, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA), divulgado pelo Sindicato da Indústria do Trigo (Sindustrigo). Itapeva é o município que mais produz o cereal. Em 2016, quando foi divulgado o último levantamento, foram 120,9 mil toneladas. Itapetininga, em segundo, produziu 45,1 mil toneladas.

De acordo com o IEA, juntas, as três cidades representam mais de 85% da área cultivada em todo o estado. A produção quase dobrou em quatro anos. Em 2013, foram produzidas 140,1 mil toneladas – em setembro do ano passado, 268,7 mil.

Por terem clima mais frio, os municípios do sudoeste se destacam no cultivo do trigo. Apesar disso, as principais culturas desta região são o milho e a soja, segundo o relatório, o que explica a escolha do cereal para a rotação de culturas.

O estado é atualmente o maior mercado consumidor de farinha de trigo do Brasil, com um consumo per capita de 55 kg, enquanto a média nacional é de 40 kg, segundo dados da Sindustrigo, o que valoriza o potencial da região.

Cerrado

Na safra 2016/2017, os estados de Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal produziram 122,1 mil toneladas de trigo, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) – o que é não é muito diante das 6,1 milhões de toneladas de trigo produzidas no país.

Porém, os números ganham mais relevância quando se trata de produtividade. Na região de Cristalina (GO), a Embrapa registrou recorde em uma área de cultivo no período. Foram 139,8 sacas por hectare (sacas/ha) enquanto a média nacional é de 46,66 sacas/ha.

Atualmente, 80% das variedades de trigo cultivadas no cerrado foram desenvolvidas pela Embrapa. A mais usada é a BRS 264, voltada para panificação. “É um trigo que tem qualidade industrial, com maior estabilidade e tempo menor de cultivo”, afirma Albrecht.

Fatores climáticos, com dias muito quentes e noites bem frias, somados aos investimentos em pesquisas e o uso da tecnologia industrial ajudaram a incrementar a produção na região, segundo o pesquisador. “O trigo do cerrado também é o primeiro a ser colhido no Brasil, em setembro, o que favorece a comercialização, já que os produtores conseguem um preço melhor”, diz.

Entre as regiões de destaque no cultivo do cereal estão Cristalina, Rio Verde e Santa Helena, em Goiás, cidades do sul do Mato Grosso, como Alto Taquari e Rondonópolis, e áreas do Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal, criado pelo governo local para incentivar a produção no cerrado.

Bahia

“Os bons resultados de colheita obtidos com variedades industriais nos últimos anos também têm incentivado a produção de trigo no cerrado baiano, no município de Luis Eduardo Magalhães”, diz Albrecht. A principal dificuldade para o crescimento da cultura no estado, de acordo com relatório da Conab, é a falta de uma unidade de processamento do grão (moinho) na região. 

A Conab estima que a área plantada com trigo seja de aproximadamente 5 mil hectares na safra 2017/2018. “A viabilidade da cultura na Bahia e em outras regiões do cerrado ocorre por conta do uso da tecnologia industrial. É um trigo de primavera, que permite a colheita na seca e não precisa tanto do frio para o cultivo, por ser mais resistente”, afirma Albrecht. 
 

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